Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma questão de higiene e limpeza

O mau gerenciamento das fontes leva as grandes cidades a um paradoxo: de um lado, a constante ameaça de falta de água nas tor¬neiras e, de outro, as enchentes periódicas. A ocupação de áreas de várzea - os terrenos às margens dos rios naturalmente tomados pelas águas em tempos de cheia - é apenas uma das causas de inundações. Outras são a falta de coleta de lixo - que entope os bueiros - e a impermeabilização: calçadas cimentadas, ruas asfaltadas e construções de concreto reduzem a área de solo capaz de absorver a água da chuva. Como conse¬qüência, o sistema de drenagem das grandes cidades não dão conta de levar para os rios todo o volume despejado dos céus.
O aumento na cobertura de concreto produz outro efeito: cria nas cidades o que os meteorologistas chamam de ilhas de calor - uma área de temperatura mais alta que a das redondezas, recobertas de vegetação, que seqüestra a umidade do ar e aumenta a intensidade das chuvas, pro¬vocando temporais. Em algumas cidades, como São Paulo, esse efeito rouba a chuva que deveria cair sobre a cabeceira dos rios, realimentando os mananciais.
D e toda a massa do corpo huma¬no, 60% correspondem à água. Ela é necessária para manter a integridade dos tecidos, a capacidade de oxigenação do sangue e o funciona¬mento dos órgãos. As conseqüências da escassez de recursos hídricos aparecem imediatamente nas estatísticas de saúde de uma população. Para ser própria ao consumo, a água deve apresentar a cada litro menos de mil coliformes fecais e menos de dez microrganismos patogênicos - os que causam doenças, como cólera, esquistossomose, febre tifóide, hepatite e leptospirose. Consumir água imprópria para beber e cozinhar é uma grande causa de mor¬tes, principalmente nos países menos desenvolvidos, onde a população care¬ce de serviços de tratamento de água e de esgoto. Estima-se que, no mundo todo, 1,1 bilhão de pessoas não tenham acesso à água potável e 2,6 bilhões careçam de esgoto tratado.
A falta de água limpa e de tratamento de esgoto leva ao aumento de doenças infecciosas, como cólera, diarréia e he¬patite B. Mais da metade das internações hospitalares registradas no planeta re-sulta desses problemas, que custam aos sistemas de saúde mais de 12 bilhões de dólares anuais. As maiores vítimas são as crianças de países pobres e em desenvolvimento: do total de 1,8 milhão de pessoas que morrem anualmente de doenças diarréicas, 90% são crianças com idade abaixo dos 5 anos.
De fato, doenças relacionadas a pro¬blemas com a água constituem endemias nos países mais pobres. Do total de mortes anuais causadas por males diarréicos, 700 mil estão no Sudeste Asiático e 608 mil, no continente afri¬cano. Mesmo quando não causa a morte diretamente, a água contaminada pro¬voca moléstias que debilitam o indiví¬duo, tanto física quanto mentalmente. E o caso da esquistossomose, que afeta 200 milhões de pessoas a cada ano. A doença - transmitida por um parasita que infecta águas paradas - retarda o crescimento e afeta a capacidade de aprendizagem das crianças.
Doença e pobreza

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infân¬cia (Unicef) calculam que, era locais onde o abastecimento depende de um poço a 1 quilômetro de distância, a viagem para buscar a água rouba a cada dia 30 minutos de cada pessoa. Nesses casos, o consumo diário per capita é de 20 litros. Se a fonte estiver além de l quilômetro da residência, a quantidade consumida cai para 5 litros diários. Com tão pouca água, não só a ali¬mentação mas também a higiene pessoal ficam comprometidas - com reflexos sérios na saúde e no desenvolvimento econômico da comunidade. O tracoma, por exemplo, doença infecciosa transmitida pela bac¬téria Chlamydia trachomatis, por contato direto com pessoas infectadas, que causa a cegueira, é de grande incidência em países da África, do Oriente Médio e da Ásia, em regiões nas quais o acesso à água é muito precário. Cegas, as pessoas têm dificuldade em conseguir se sustentar. Estima-se que a incapacitação para o trabalho em razão apenas do tracoma resulte na perda de 3,95 milhões de anos úteis no mundo todo. Só no Sudeste Asiático o prejuízo é de 1,6 milhão de anos. E na África, de 1,5 milhão. Cada ano útil é um ano de trabalho de uma pessoa.
Por isso, a ONU considera que desenvol¬vimento socioeconômico e água são fatores interdependentes. Sem saúde, uma criança tem dificuldade de aprender e um adulto, de trabalhar. Forma-se um círculo vicioso: sem trabalhar e sem aprender, uma população permanece subdesenvolvida e pobre - o que contribui para mais desinformação e maior incidência de doenças.
Saúde do brasileiro
Segundo a OMS, no Brasil a porcentagem de mortes causadas pela contaminação da água - 2,3% do total - está abaixo da média mundial, de 6,3%. Ainda assim, isso significa que cerca de 28 mil brasileiros morrem a cada ano em decorrência de algum fator relacionado à qualidade e disponibilidade de água e à falta de saneamento.
Um estudo da organização Trata Brasil e da Fundação Getulio Vargas afirma que, se não se alterar o ritmo de investimentos do poder público no setor, a universaliza¬ção do acesso à rede geral de água e esgoto deve ocorrer apenas daqui a 115 anos. Até lá, as maiores vítimas serão crianças com idade entre l e 6 anos, as mais expostas aos malefícios do ambiente contaminado.

Para saber mais leia – Atualidades vestibular – 2009 – Ed. Abril

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