Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Muitos rios, acesso desigual

As cidades sugam cada vez mais água do planeta. A acelerada ur¬banização, que colocou em 2008 mais da metade da população mundial em centros urbanos, faz com que aumente cada vez mais o volume retirado dos rios para abastecer residências e indústrias. O crescimento das cidades causa também outras pressões sobre as reservas hídricas: o aumento do volume de resíduos sólidos (lixo) e o despejo de resíduos industriais e domésticos sem tratamento, que contribui para poluir córregos e rios e entupir as vias de drenagem das cidades, e a ocu¬pação irregular do solo, que compromete os mananciais. Como resultado, além de sobrecarregar as reservas, as populações das cidades estão sujeitas a consumir água de baixa qualidade, potencial responsável por doenças como cólera e diarréia.
A situação é pior nos países pobres e em desenvolvimento. Segundo o Progra¬ma das Nações Unidas para o Desenvol¬vimento (Pnud), entre 1990 e 2004 a taxa
de urbanização no lêmen subiu de 20% para perto de 30%. No entanto, a parcela da população total que tem acesso à água limpa caiu de 84% para pouco mais de 70%, no mesmo período. Na Nigéria, a si¬tuação é ainda pior: a taxa de urbanização passou de 34% para 48%, mas o acesso à água de qualidade caiu de 80% para 68%. Isso porque as pessoas, ao saírem da zona rural, perderam acesso à água limpa, que não encontraram na cidade.
Em regiões ricas em recursos hídricos, as reservas são ameaçadas pelo desper¬dício e pela ineficiência no uso da água. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 60% da água empregada na agricul¬tura seja desperdiçada. Nas grandes cida¬des, os vazamentos e as fraudes podem levar a perdas de mais de 30%. A solução para a questão das águas urbanas passa por um leque de medidas - da redução do desperdício e da poluição à política de saneamento e de ocupação do solo.

Brasil urbano

Com grande número de rios e abun¬dância de chuvas, o Brasil detém cerca de 13% de toda a água superficial do planeta. Somando-se a isso os depósitos subterrâ¬neos, o país oferece a cada habitante 34 mil metros cúbicos (34 milhões de litros) por ano. Mas toda essa água não é distribuída de maneira equilibrada: falta água na região do semi-árido e nas grandes capitais do Sudeste. Cerca de 70% das reservas brasileiras estão na Região Norte, onde vivem menos de 10% da população. Na média, um morador de Roraima dispõe de mais de 1,1 milhão de metros cúbicos de água por ano, enquanto um paulista não tem mais do que 2,5 mil metros cúbicos e um pernambucano, 1,1 mil metros cúbicos por ano - bem próximo do índice de escassez. A situação é pior nas áreas de maior concentração demográfica, nas quais o consumo é acompanhado de perto pela contaminação por esgoto in¬dustrial e doméstico, que reduz o volume de água disponível por pessoa.
O Brasil é um país essencialmente urbano - 83% dos brasileiros vivem em cidades. E, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 92,6% dessa população urbana é atendida por rede geral de abastecimento de água. E uma taxa alta, se comparada à da zona rural, que não supera os 28%. Os 7,4% dos brasileiros urbanos que não têm acesso aos serviços de abastecimento são obri¬gados a recorrer a poços, bicas, água das chuvas ou compra de água de caminhões-pipa - fontes que muitas vezes escapam do controle sanitário e podem chegar às casas contaminadas pelos vazamentos de fossas sépticas ou da rede de esgoto doméstico e industrial.
Apesar da alta média brasileira de co¬bertura da rede geral de abastecimento de água, a situação de algumas cidades, isoladamente, pode ser precária. Mesmo na Região Norte, bem provida de recursos hídricos, a porcentagem dos habitantes de três capitais com acesso à rede geral de abastecimento é baixa: apenas 58,5% em Macapá (AP), 56,2% em Rio Branco (AC) e 30,6% em Porto Velho (RO). O des¬perdício contribui
para a escassez de água nas cidades. Se¬gundo estudo do Instituto Socioambiental, a água perdida diariamente nas capitais brasileiras seria suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas. A cidade do Rio de Janeiro joga fora, sozinha, mais de 1,5 milhão de litros a cada dia - o equivalente a quase 620 piscinas olímpicas.
Nos grandes aglomerados urbanos das regiões Sul e Sudeste, o acesso à água começa a se tornar um problema que extrapola os limites metropolitanos. Para abastecer os quase 20 milhões de habitantes da Grande São Paulo, a bacia do Alto Tietê e as represas Billings e Guarapiranga não são mais suficientes. A solução é importar água de outras bacias: mais da metade da água consumida na região vem da bacia do rio Piracicaba, a mais de 70 quilômetros da capital. Essa transferência de recursos hídricos, é cla¬ro, exerce pressão sobre a oferta de água para as cidades, as indústrias e a agri¬cultura do interior paulista. Além disso, os 5,6 bilhões de litros de água lançados diariamente nas tubulações da Grande São Paulo colocam os mananciais pró¬ximos de seu limite de disponibilidade. Basta um breve período de falta de chuvas para a população se ver forçada a limitar o consumo, sob ameaça de torneiras secas e racionamento de água.

Saneamento
Pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS) em 4,5 mil municípios brasileiros (cerca de 84% do total do pais) mostra que, em 2006, o índice médio nacional de coleta de esgoto por rede geral era de pouco mais de 48%, mas apenas 32% do total de esgoto gerado recebia tratamento. Em Belém (PA), Manaus (AM) e Rio Branco (AC), menos de 3% da população tem esgoto tratado. Mesmo nas regiões metropolitanas mais ricas, a situação é precária. Na Grande São Paulo, menos de 25% do total de 56 metros cúbicos de esgoto produzidos a cada segundo recebe tratamento. Os restantes 42 metros cúbicos são despejados direta¬mente nos mesmos rios que abastecem os reservatórios de abastecimento.
A situação, de novo, é perversa: enquanto a população de maior renda, concentrada nos bairros centrais das grandes cidades, é atendida por serviços de saneamento básico, a parcela mais pobre distribui-se informalmente pela periferia, onde a infra-estrutura é precária. Em alguns centros urbanos, 50% da população ocupa áreas irregulares e não tem acesso a serviços de água, coleta e tratamento de esgoto e coleta de lixo. Estima-se que a população favelada brasileira supere os 6,5 mi¬lhões de pessoas e deva chegar a 13,5
milhões nos próximos dez anos. Assim, a questão do acesso à água limpa torna-se um fator de exclusão social.
Ocupação do solo
A ocupação irregular do solo agrava a escassez de água. A carência habitacional leva parte da população da periferia a se instalar às margens de represas, nascen¬tes e rios, destruindo a mata ciliar, que protege os mananciais, e poluindo as fontes, que deveriam manter-se intactas para abastecer a cidade. Os números são alarmantes: a prefeitura de São Paulo estima que 2 milhões de pessoas vivam em ocupações ilegais em áreas de manan¬cial na região. Como resultado, grandes represas, como Billings e Guarapiranga, apresentam altíssimos índices de contaminação. Outra conseqüência da poluição é o aumento do gasto com a pre¬paração da água para consumo humano. Enquanto o tratamento da água de reser¬vatórios bem preservados custa entre 25 e 50 centavos de real por metro cúbico, o valor do mesmo processo em represas poluídas pode superar 5 reais.

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – editora Abril

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