Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Contagem regressiva

Ações humanas provocam profundas transformações no ambiente terrestre e levam ao desaparecimento de espécies ainda nem descritas pela ciência
Por Martha San Juan França

Todo ano, os jornais noticiam a des¬coberta de espécies de animais e plantas em algum lugar do planeta. Em 2009, por exemplo, foram sapos, aranhas e uma lagartixa, avistados na região central da Papua-Nova Guiné, na ilha do Pacífico. Um roedor, duas novas espécies de besouro e uma planta que purifica a água vinda dos altiplanos dos Andes foram achados no Peru. Outros anfíbios foram encontrados na fronteira entre a Colômbia e o Panamá. Em 2008, graças ao trabalho intenso de pesquisa¬dores, foram descritos nada menos que 17 novos sapos, pererecas e rãs no território brasileiro. E assim vai. Por todos os lu¬gares, a natureza impressiona com a sua extraordinária capacidade de se multi¬plicar em milhares de formas adaptadas aos lugares mais estranhos - do fundo do mar ao pico das montanhas, dos pólos gelados às florestas tropicais.
Dá para imaginar, portanto, por que não é possível saber exatamente quantos animais, plantas e microrganismos dife¬rentes existem na Terra. Simplesmente porque não há pesquisadores suficientes para encontrá-los e descrevê-los. Apesar de já terem sido catalogados cerca de 2 milhões de espécies vivas, estima-se que o número verdadeiro seja bem maior -entre 50 milhões e 100 milhões.

Riqueza brasileira
No quesito de diversidade biológica, o Brasil é o campeão mundial de longe. Isso ocorre graças à extensão de seu território e aos diversos climas, que contribuem para as diferenças ambientais que ca¬racterizam os seus biomas.
Nosso país abriga boa parte da maior flo¬resta tropical úmida do planeta - a floresta Amazônica -, com mais de 30 mil espécies vegetais, e a maior planície inundável - o Pantanal -, além de diversos biomas, como o cerrado, a caatinga e a mata Atlântica, que contribuem para essa extraordinária variedade. Além disso, a costa brasileira possui uma série de ecossistemas que in¬cluem recifes de corais, dunas, manguezais, estuários e lagoas. O resultado é que uma em cada dez espécies de mamíferos registradas no mundo é encontrada aqui (são 522), bem como uma em cada seis espécies de aves (1.622), uma em cada 18 de répteis (468) e uma em cada 12 de anfíbios (516). Muitas dessas espécies são exclusivas de nosso território - o que se chama de "endêmicas" -, não sendo en-contradas em outros pontos do planeta. O país conta com a flora mais diversa do mundo, com número superior a 55 mil espécies descritas, o que corresponde a 18% do total global. Possuímos também 3 mil espécies de peixes de água doce Quem não tem idéia do que representa essa riqueza pode se perguntar: e daí? Qual a importância de anfíbios, plantas vistosas e aves coloridas, além da beleza que chama atenção nos documentários da TV ou no poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias ("Minha terra tem pal¬meiras, onde canta o sabiá/As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como /á.")? Bem, a manutenção da beleza já é um bom argumento a favor dessa riqueza natural, mas há outros, relacionados ao conceito de biodiversidade, estabelecido pela Con¬venção da Diversidade Biológica, assinada durante a Eco 92, no Rio de Janeiro.

Biodiversidade
Muito usado atualmente por biólogos, ambientalistas e líderes políticos para discutir os rumos do desenvolvimen¬to nas próximas décadas, o conceito de biodiversidade implica: -
- conhecer a variabilidade de orga¬nismos vivos existentes em deter¬minado território;
- conhecer o material genético desses seres vivos
Assim, a biodiversidade é algo estraté¬gico, como um estoque de material que pode ser útil para atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais e parajt indústria de biotecnologia. Concretamente, a biodiversidade é fonte de proteínas, remédios, cosméticos, material de cons¬trução, fibras, roupas e alimentos. Com o avanço da ciência, torna-se fundamental para a criação de grãos mais produtivos e resistentes a pragas, para a polinização das plantas e para o enriquecimento de solos para a agricultura.
Mas a biodiversidade ainda é mais do que isso. Tão importante quanto animais, plantas e microrganismos tomados iso¬ladamente é a maneira como eles estão organizados e como interagem para de¬terminar a estrutura e o funcionamento de um ecossistema,
Diante da interdependência e da complexidade dos processos que ocor¬rem na natureza, só agora os estudiosos estão começando a perceber como o desequilíbrio de algum componente acaba afetando a sobrevivência do todo. Tome-se como exemplo o efeito do aquecimento global sobre a Amazônia. Os estudos mostram que o aumento da temperatura no planeta e o desmata-mento podem provocar alteração no seu processo bioquímico, fazendo com que a floresta se transforme em uma savana. Essa mudança pode, por sua vez, influenciar o regime de chuvas em outras regiões do continente.
Por esses motivos, evitar a extinção de espécies animais e vegetais e atuar para garantir sua variedade genética e biológica é fundamental para o desen¬volvimento de populações que vivem e exercem suas atividades direta ou indiretamente ligadas à exploração de áreas de grande biodiversidade. Ape¬sar disso, até recentemente o Brasil, como outros países, não se dava conta da importância dessa riqueza para o planejamento de políticas e para a organização das atividades econômicas. Pagou caro por isso, com a destruição de boa parte da mata Atlântica, que, próxima ao litoral, recebeu o impacto da colonização e está reduzida a cerca de 7% do tamanho original.
Hoje, a mata Atlântica é considera¬da um hotspot (ponto quente, em in¬glês), um termo usado pelos cientistas para designar os lugares que, além de apresentarem alto grau de diversidade biológica e endemismo, devem ser especialmente protegidos, pois estão muito ameaçados pela atividade humana. Além da mata Atlântica, o cerrado, que perdeu parte da paisagem original, devido à expansão agrícola para o Centro-Oeste, também é considerado um hotspot, pois está ameaçado pela expansão da agropecuária em seus domínios, particularmente no oeste baiano, sul do Maranhão, Tocantins e norte de Mato Grosso.
A lista brasileira mais recente de animais em risco é de 2006 e apresen¬ta 721 espécies, um acréscimo de 24 em relação ao levantamento anterior, realizado em 2004. Nesse particular, as notícias não são boas: prevê-se que a nova lista, a ser publicada ainda em 2009, seja de 15% a 20% maior. A maio¬ria das novas espécies ameaçadas deve vir da mata Atlântica e do cerrado, mas também da Amazônia. As causas são o desmatamento, as queimadas, o tráfico de animais, o despejo inadequado de produtos químicos no meio ambiente e a ocupação de grandes áreas, por exem¬plo, no litoral, sem a preocupação com o tratamento de lixo, esgotos etc.

Extinção em massa
O Brasil não é o único país a enfrentar a perda da biodiversidade, embora, devido a sua importância nessa questão, este¬ja sob os holofotes do mundo. Em toda parte, a interferência do homem faz com que as espécies estejam desaparecendo mais rapidamente do que em épocas an¬teriores da vida do planeta. No passado, a diversidade biológica havia possibilitado que a natureza reencontrasse um estado de equilíbrio depois de sofrer impactos, muitas vezes bastante sérios. O problema é que, agora, a sociedade humana está, ao mesmo tempo, reduzindo a biodiversi¬dade e acelerando o ritmo de mudanças com velocidade acima do que a natureza consegue suportar. O resultado é que cresce com rapidez a extinção de espécies animais e vegetais.
O maior sinal de alerta sobre os ataques à biodiversidade foi dado em 2005, com a publicação do documento Avaliação Ecossistêmica do Milênio, o diagnóstico
solicitado pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a saúde do plane¬ta e sua relação com a manutenção da vida humana. O diagnóstico feito pelo relatório, resultado do trabalho de 1.360 cientistas de 95 países, incluindo o Bra¬sil, é o de que a Terra está passando por um novo período de extinção em massa (já houve outros em diferentes momen¬tos do passado do planeta, por diversos motivos). Estima-se que cerca de 27 mil espécies desapareçam a cada ano, muitas nem sequer descritas pela ciência.
O documento afirma que, caso se mantenha o atual ritmo de devastação ambiental, dentro de algumas décadas o planeta não conseguirá fornecer os re¬cursos naturais necessários à população humana em quantidade suficiente - por causa, sobretudo, da poluição e da exploração exagerada dos recursos naturais. Outro problema é a entrada de espécies exóticas, que provocam desequilíbrio em ecossistemas, pois, com a atual rede de comércio internacional (aviões, navios...), ocorre com freqüência a introdução em muitos locais de espécies que não exis¬tiam ali naturalmente. No Brasil, isso aconteceu, por exemplo, com a chegada há alguns anos do mosquito africano Aedes aegypti, vetor da dengue - que levou à atual propagação da doença -, e do mexilhão-dourado, um molusco que veio no lastro dos navios e virou uma praga, incrustando-se em instala¬ções submersas de usinas hidrelétricas e fábricas, muitas vezes impedindo que funcionem normalmente.
Outros fatores que concorrem para a extinção das espécies são a degradação e a fragmentação dos ecossistemas -resultado da abertura de pastagens ou de áreas de cultivo sem a manutenção de reservas naturais -, o extrativismo desordenado, a mineração, a expansão urbana e a conseqüente ampliação da malha viária, além da poluição e da formação de lagos para hidrelétricas. O relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), rede de organizações de mais de 160 países, estima que quase 17 mil espécies existentes na Terra estejam ameaçadas de extinção. A contagem feita em 2009, referente só a pássaros, informa que 1.227, ou 12% das espécies conhecidas do mundo, estão ameaçadas.

Mecanismos de proteção
Em contrapartida a essa destruição, desde a realização da Eco 92, no Rio de Janeiro, há 17 anos, 188 países já ratifica¬ram a Convenção da Diversidade Bioló¬gica, que estabelece o direito soberano sobre a variedade de vida contida em seus territórios e o dever de conservá-la e de garantir que sua utilização seja feita de forma sustentável, ou seja, equilibra¬da e duradoura. A convenção ressalta a necessidade de repartição justa e equitativa dos benefícios derivados dos usos dos recursos genéticos entre todos os países e entre as populações cujo conhecimento tenha sido a fonte desses recursos - por exemplo, comunidades acostumadas a utilizar as plantas de sua região desde tempos ancestrais, como os índios brasileiros.
O problema da compensação finan¬ceira pelo conhecimento obtido a partir da biodiversidade, porém, continua a ser motivo de controvérsia. Ganhou manchete dos jornais o caso do cupuaçu, que teve um pedido de patente re¬gistrado no exterior por uma empre¬sa japonesa, apesar de ser típica da Amazônia. Por ele, o nome cupuaçu e seu uso passavam a ser propriedade da tal empresa. A contestação de enti¬dades ambientalistas nos escritórios de patentes internacionais impediu a aprovação do registro, pois as aplica¬ções do produto já eram, havia muito tempo, de domínio dos índios e das comunidades tradicionais da região, e não havia nenhum tipo de inovação que justificasse o direito de sua exploração pela companhia do Japão.
Esse é um exemplo da complexidade envolvida em questões ligadas à biodi¬versidade. Outro é o estabelecimento de regras para que os países tenham as informações necessárias antes de aceitar a importação de organismos vivos gene¬ticamente modificados (transgênicos), pois eles podem ter efeitos negativos na conservação e no uso sustentável da diversidade biológica e até afetar a saúde das pessoas. A questão dos transgênicos é controvertida e, por isso mesmo, ainda está na decisão de cada país tomar me¬didas para prevenir danos ambientais decorrentes de seu uso.
O tráfico de animais silvestres é consi¬derado uma das principais atividades ile¬gais globais - com o tráfico de armas e de drogas. O problema afeta principalmente países da América do Sul, nos quais se constata a associação entre os traficantes de drogas e de fauna. Calcula-se que, só no Brasil, cerca de 38 milhões de animais silvestres sejam contrabandeados ao ano. A maioria nem chega ao local de destino, pois morre pelos maus-tratos durante a captura e o transporte. Como o valor da espécie é definido por sua raridade, o tráfico de animais ameaçados de extinção é um dos principais fatores que aceleram o desaparecimento da fauna.
Uma das estratégias para a conservação que se tem mostrado mais efetiva no Era sil e em outros países com grande riqueza de espécies é a criação de corredores de biodiversidade, formados por uma rede de parques, reservas e áreas privadas de uso menos intensivo para garantir a sobrevivência do maior número de ani¬mais e plantas em equilíbrio na nature¬za. No caso brasileiro, essa criação de corredores exige maior esforço na mata Atlântica, no cerrado, Pantanal e em al¬gumas regiões da Amazônia. Além disso,
a estratégia brasileira tem sido investir em um extenso sistema de áreas protegi¬das federais, incluindo 9% do território protegido diretamente e 12% em terras indígenas, além de reservas legais nas propriedades particulares e áreas prote¬gidas nos estados - num total de 23%. O problema são a fiscalização dessas áreas e a conscientização de todos os envolvidos no sentido de conservá-las, garantindo a riqueza de vida ali existente.
Desmatamento na Amazônia extingue 26 espécies e ameaça 644 diz a ONU
O desmatamento da Amazônia provocou a extinção de 26 espécies de animais e plantas até 2006, se¬gundo um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Programa das Na¬ções Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). No mesmo período, outras 644 espécies entraram na lista de animais e plantas ameaçados de extinção. Das 26 espécies extintas, dez estão na parte brasileira da flo¬resta amazônica. Entre as espécies ameaçadas, estão o macaco-aranha (Ateies beízebuíh), o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus) e a lontra.
O relatório GEO Amazônia, que está sendo divulgado em um encontro do
Pnuma em Nairóbi, no Quênia, desta¬ca que o desmatamento da Amazônia continua acontecendo em ritmo acele¬rado. O relatório do Pnuma afirma que até 2005 a Amazônia acumulou uma perda de 17% da sua vegetação total nos nove países que possuem trechos da floresta tropical. A área total desmatada foi de 857-666 km2.
Entre 2000 e 2005, a floresta ama¬zônica sofreu desmatamento equi¬valente a 94% do território total da Venezuela, dado que havia sido an¬tecipado no mês passado pelo jornal francês "Lê Monde"" e noticiado pela BBC Brasil. O relatório afirma que três fatores vão influenciar na forma como a Amazônia vai se desenvolver no futuro: as políticas públicas, o funcionamento do mercado e o desen¬volvimento de novas tecnologias...
Folha de S.Paulo, 18/2/2009


Alerta nos oceanos
O problema do declínio da biodiversi¬dade não afeta apenas os ecossistemas terrestres. Ele é alarmante também nos mares, nos quais a população de peixes e outras espécies marinhas, como os crustá¬ceos, pode entrar em colapso até meados do século XXI, caso a pesca intensiva e a destruição de habitats continuem no mesmo ritmo. Relatório divulgado por especialistas na revista científica Science adverte que mais de 40% da superfície oceânica está sob forte pressão das ati¬vidades humanas e corre sério risco de se transformar em deserto biológico.
Os cientistas chamam atenção não apenas para a pesca excessiva, facili¬tada pelos avanços tecnológicos, que permitem a captura de peixes menores e em águas mais profundas, mas para a poluição e a acidificação dos oceanos. O homem está lançando nos mares e oceanos, além de efluentes industriais e esgotos domésticos, grande quantida¬de de nutrientes originados em fertili¬zantes usados na agricultura e levados para os rios pelas chuvas. Além disso, o lixo, formado por produtos plásticos, como garrafas e embalagens, vai parar no estômago de animais marinhos, que morrem sufocados. Os estudos mostra¬ram que os oceanos apresentam mais de 400 zonas mortas, com baixos níveis de oxigênio na água e praticamente a extinção da vida marinha.
Estima-se que as populações de peixes grandes e mais lucrativos para a pesca comercial, como o atum, o bacalhau, o peixe-espada e o peixe-agulha, tenham diminuído até 90% no último século. Mais de 70% dos recursos pesqueiros encontram-se esgotados ou já excederam seu limite sustentável. No Brasil, as maiores vítimas são o cação e o mero, além da popular sardinha, que está cada vez mais rara, e da lagosta, que, no passado, era muito mais freqüente no litoral nor¬destino. A pesca excessiva e a destruição dos manguezais, nos quais se localizam as mais importantes fontes de alimento dos peixes, estão entre as principais causas das perdas das espécies brasileiras.
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