Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aquecimento global

Será que o Pólo Norte pode ficar sem gelo? Por incrível que pareça, é possível. A cada ano, a extensão do mar congelado na região bate recor¬des de encolhimento. No fim do verão passado, foi mais de l milhão de quilô¬metros quadrados descongelados (área equivalente a um quinto da Amazônia) - suficiente para abrir uma passagem entre o Atlântico e o Pacífico pelo norte, que antes não existia. Não é à toa que o urso-polar, que depende do mar congelado para caçar focas no inverno, esteja na lista de animais em perigo de extinção e as aldeias de esquimós no Alasca e na Groenlândia, onde os rios que escorrem das geleiras aumentam sua descarga no mar, tenham se mudado para terrenos mais seguros.
Tudo isso estava previsto - embora não tão rápido. No ano passado, os jornais anunciaram o resultado dos estudos de cerca de 2,5 mil especialistas mobilizados pela ONU para estudar o clima no planeta. Era a quarta vez que esses cientistas, que compõem o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresenta¬vam suas conclusões sobre o aquecimento global, ou o aumento da temperatura da Terra. Nos anos anteriores, porém, foram cautelosos sobre suas causas e menos precisos sobre as conseqüências. Em 2007, eles manifestaram-se com mais clareza. O planeta vai ficar mais quente - na melhor das hipóteses, de 1,1 °C a 2,9 °C até 2100. E esse aumento de temperatura não pode ser atribuído apenas a causas naturais. Há também a ação do homem.
O trabalho do IPCC levou o comitê do Nobel da Paz a outorgar o prêmio de 2007 para esse grupo de cientistas, entre os quais estão 61 brasileiros, com o ex-více - presidente dos Estados Unidos Al Gore, conhecido no mundo inteiro após o lançamento de seu livro Uma Verdade Inconveniente, que deu origem ao docu¬mentário que levou o Oscar do cinema. Os cientistas comprovaram que a huma¬nidade contribui para o efeito estufa ao adicionar toneladas de gases que aprisio¬nam calor na atmosfera (o nome vem da comparação com o vidro de uma estufa de plantas), como o gás carbônico liberado por indústrias, veículos, desmatamento e agropecuária. A temperatura aumenta à medida que a população do planeta cresce, gasta mais energia, consome mais e desmaia mais.

Efeito cascata

O aquecimento global já é uma rea¬lidade da qual não se pode escapar. Se, de repente, por um passe de mágica, o mundo deixasse de jogar gás carbônico e outros gases do efeito estufa na atmos¬fera, ainda assim o clima ficaria mais quente. A prova está mais evidente no Pólo Norte, mas também em outras re¬giões do planeta, assoladas por inunda¬ções, furacões, secas e outros fenômenos trágicos. Os efeitos se ampliam como se fossem cascata. A segunda parte do relatório do IPCC, divulgada também no ano passado, detalha isso.
O derretimento do gelo polar, por exemplo, não é apenas uma curiosida¬de paisagística. Tanto no Ártico como na Antártica, o fenômeno provoca o au¬mento do nível do mar - uma das piores conseqüências do aquecimento global. Os oceanos já subiram 17 centímetros no último século, provocando mais erosão e ressacas em cidades litorâneas. Com meio metro de elevação, calculam cien¬tistas brasileiros, 100 metros de praia seriam consumidos no nordeste brasi¬leiro. Ilhas-nações do oceano Pacífico e países baixos como a Holanda ou regiões como o delta do Ganges, em Bangladesh, seriam inundados.
Todo mundo se lembra do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 2005, e expôs o des¬preparo do país mais poderoso do planeta para enfrentar a fúria dos ventos e do oceano. Dias depois, a costa do Golfo do México se viu às voltas com outro furacão, chamado Rita, causador de prejuízos bilionários, especialmente na indústria petrolífera do litoral do Texas. No mesmo ano, uma das piores secas se abateu sobre abacia amazônica. Imagens familiares de rios caudalosos foram substituídas por um deserto, semeado de peixes mortos e barcos abandonados.
Os dois fenômenos tiveram a mesma ori¬gem: um aquecimento anormal das águas do Atlântico. Mais calor na superfície do ocea¬no significou um aumento de vapor d'água na atmosfera - ou mais combustível para furacões. As águas aquecidas do Atlântico afetaram o regime dos ventos que sopram do Caribe para a América do Sul e normal¬mente trazem umidade para a Amazônia. O resultado foi a tragédia que se seguiu, debitada na conta das mudanças climáticas resultantes do aquecimento global.

O que está acontecendo...
Pelos relatórios do IPCC, não há dúvidas: as mudanças climáticas estão aí, basta ver
TEMPERATURA MÉDIA GLOBAL: Na década compreendida entre 1995 e 2006 ocorreram 11 dos 12 anos mais quentes já registrados em todo o planeta desde 1850. Naquele ano foram iniciadas as medições de temperatura
MÉDIA GLOBAL DO NÍVEL DO MARO: mar está subindo no mundo inteiro, e o ritmo dessa elevação vem aumentando gradualmente. No decorrer do século XX, os estudos revelaram que o nível das águas marítimas subiu 17 centímetros
COBERTURA DE NEVE E GELEIRAS DE MONTANHA: Neves eternas, como as que cobrem o monte Kilimanjaro, na África, e geleiras de montanhas nos dois hemisférios estão sofrendo visível redução.

..e o que pode acontecer
Os dentistas do IPCC sabem que não existe mágica que detenha a destruição dos ambientes naturais. No mapa-múndi vemos os avanços de temperatura na última década do século XXI, em um dos cenários projetados

América do Norte - A produção de culturas irrigadas pode aumentar até 20%. O derretimento das geleiras nas montanhas provocará inundações no inverno e secas no verão. Espécies tropicais vão avançar em direção aos pólos. O mosquito da dengue pode se espalhar pelos EUA

América Latina - Parte da floresta Amazônica pode se tornar cerrado, enquanto o núcleo da caatinga pode virar deserto. A vazão do rio Amazonas deve cair, ameaçando a biodiversidade. O aumento da temperatura e chuvas mais intensas podem afetar a cultura de grãos no sul.
Regiões polares - A cobertura gelada na Groenlândia e o gelo ártico podem sumir quase totalmente no verão antes do fim do século XXI, e podem sumir, também, ecossistemas, invadidos por outras espécies com a redução da barreira do frio. Sem o gelo na calota norte da Terra, o nível do mar poderia subir até 7 metros
O mundo tem esquentado mais no Hemisfério Norte, mas todo o planeta vem experimentando extremos climáticos
O aumento da temperatura ártica foi o dobro da mediado planeta no último século. Desde 1978, a calota de gelo do Ártico, no norte do globo, encolhe 2,7% por década. Enchentes e ondas de calor atingiram a Europa em 2002 e 2003.
Houve aumento na atividade de ciclones tropicais no Atlântico Norte, como a devastadora seqüência de furacões de 2005 (Katrina, Rita, Wilma).
No Brasil, as secas no Sudeste, em 2001; no Sul, de 2004 a 2006; na Amazônia, em 2005; e o furacão Catarina, de 2004, podem estar relacionados ao aquecimento.
O mar avança sobre as praias. Pernambuco é o estado brasileiro mais afetado. O Recife perdeu 80 metros de praia entre Í915 e 1950, e, entre 1985 e 1995, o mar avançou mais 25 metros

Europa - As geleiras derreterão nas montanhas, que perderão espécies naturais. No sul e leste europeus, as secas reduzirão a água disponível e a produtividade agrícola. No norte, podem ocorrer melhores safras e expansão das florestas, mas também mais inundações e erosão.
Ásia - O derretimento do gelo no Himalaia deve provocar inundações e ameaça aos recursos hídricos. Haverá redução da água doce disponível no continente. Os super-povoados deltas do sul, leste e sudeste da Ásia podem ser invadidos pela água do mar. Com mais inundações e calor, pode haver mais cólera e diarréia.
África - A falta de recursos faz da África um continente muito vulnerável às mudanças climáticas. As secas podem condenar 250 milhões de pessoas à sede em 2020 e derrubar pela metade a safra em algumas nações. A fome deve se agravar com os efeitos negativos do aquecimento sobre a pesca e a destruição dos manguezais pelo avanço do mar.
Oceania - Com dinheiro e capacidade científica, os países da região podem se adaptar aos efeitos do aquecimento na economia, mas a situação é bem diferente para os delicados ambientes naturais. Tesouros ambientais como a Grande Barreira de Corais podem ser muito atingidos e até sumir.
Vai esquentar mais
Mesmo que a humanidade tivesse estabilizado a emissão de gases em 2000, as temperaturas subiriam l °C até o fim do século XXI. Entre os cenários previstos pelos cientistas, o mundo pode terminar o século XXI até 6 °C mais quente do que começou
Relatório dos cientistas do IPCC afirma que o aquecimento global é gerado pela ação humana
Cerca de 40% da população mundial depende das águas dos rios que são ali¬mentados pelo degelo da cordilheira do Himalaia para sua sobrevivência. E as geleiras do Himalaia estão derretendo rapidamente. Segundo as previsões, an¬tes de 2050, boa parte desse gelo terá sumido, causando prejuízos drásticos à agricultura do Sudeste Asiático e de dois países gigantes - a índia e a China. As conseqüências se desdobram para além da fome local e da escassez de água que se seguirá. A pressão maior sobre o mercado de grãos provoca o aumento da importação de alimentos e uma escalada de preços no mercado mundial. Os analistas, aliás, acreditam que isso já esteja acontecendo .
O aumento da temperatura está in¬terferindo no período de migração de pássaros, na época de florescimento das plantas e nas fases de crescimento de ani¬mais. Até os sapos foram afetados. Mais de 70 espécies de anfíbio da América Tropical sofrem com a proliferação de um fungo que infecta a pele, usada por esses animais para respirar. E a causa da proli-feração do fungo, acreditam os cientistas, é a mudança da temperatura nas florestas tropicais, onde os sapos são endêmicos. Da mesma forma, o aquecimento global permite que mosquitos do tipo Aedes albopictus, um dos vetores da dengue, sobrevivam em áreas antes consideradas muito frias para eles, contribuindo para o aumento dos casos da doença.

Discussões e ações
Até recentemente, os céticos do aque¬cimento global - um grupo de cientis¬tas, políticos, economistas e lobistas de petróleo - questionavam em artigos e entrevistas nos jornais se havia motivo de alarme. Hoje, diante de tantos exem¬plos, acrescidos dos dados obtidos pelos cientistas do IPCC, eles estão mudando seu enfoque. Não negam mais que a Terra está esquentando, mas afirmam que as previsões sobre suas conseqüências são exageradas.
Os céticos argumentam que evitar o aumento do consumo e o livre mercado para diminuir as emissões de gases do efeito estufa é contraproducente. Outros acreditam que as variações do clima são provocadas por fatores externos ao pla¬neta - entre eles os raios cósmicos que interagem com a troposfera e interferem na formação de nuvens. Não têm, portan¬to, nada a ver com a ação do homem. Com isso, fornecem mais argumentos para que políticos como o presidente norte-ame¬ricano George Bush se recusem a tomar medidas que limitem as emissões de gases do efeito estufa em seu país.
No ano passado, os cientistas do IPCC apresentaram seu relatório em três par¬tes. Na primeira, demonstraram os efeitos da elevação da temperatura - como o de¬gelo do Ártico e da Antártica e o aumento do nível do mar e da força dos furacões. Na segunda parte, detalharam quais os continentes que seriam mais prejudi¬cados pelo aquecimento global, como a África e a Ásia - destacando que os países mais pobres seriam mais afetados, por¬que não têm infra-estrutura necessária para lidar com os fenômenos climáticos - como seca e furacões. No caso do Brasil, as projeções indicavam a substituição gradual da floresta tropical por savanas no leste da Amazônia e períodos mais prolongados de seca no Nordeste.
A terceira parte do relatório sugere estratégias e tecnologias para deter essas tragédias. O que significa um desafio para toda a humanidade. Para manter o aumento de temperatura no limite de 2 °C no século XXI, a solução está no corte das emissões de gases do efeito estufa. Significa reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, promover a eficiência energética e ampliar o uso de energias renováveis, além de aplicar no¬vos padrões na agricultura, na construção civil, no transporte e na coleta de lixo. Traduzindo: mexer com a economia dos países, naturalmente um processo com¬plicado. E, não menos difícil de conseguir, o relatório também propõe que as pessoas do mundo todo modifiquem seus hábitos cotidianos de vida e de consumo.
As decisões que devem ser tomadas para reduzir o uso do petróleo e outros combustíveis fósseis não são triviais. Pelo contrário, têm um impacto imediato no conforto da parte mais rica da humanida¬de e nas esperanças de riqueza da parte mais pobre. Significa abdicar de um modo de vida associado ao consumo exagera¬do dos recursos naturais do planeta. E aderir à expressão da moda - o desen¬volvimento sustentável, ou aquele que "atenda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as próprias necessi¬dades". Na prática, significa desenvolver novas políticas de governo, empresas e organizações, além de mudar a forma de conduta dos cidadãos em aspectos tão diversos como fazer a coleta seletiva do lixo ou deixar o carro em casa e utilizar transporte coletivo.
Tratados internacionais

As mudanças são complexas também no âmbito internacional. Os problemas ambientais que afetam o planeta são discu¬tidos em conferências das Nações Unidas nas quais é necessário obter o consenso entre centenas de governos, interesses e políticas diversos. No caso do clima, a mais importante ocorreu em Kyoto, no Japão, em 1997. Ela foi um desdobramento da Rio 92 (ou Eco 92), considerada a maior conferência mundial sobre meio ambiente. Naquela ocasião foi instituída a Conven¬ção-Quadro sobre Mudanças Climáticas, cujo objetivo era estabilizar as emissões atmosféricas de gases estufa em níveis que impedissem uma interferência perigosa no sistema climático do planeta.
Não se estabeleceram prazos nem me¬tas na Rio 92; apenas foi dado o passo inicial na longa discussão diplomática que se seguiu. A regulamentação ficou por conta das conferências das partes (COPs), reuniões periódicas de repre¬sentantes dos países participantes da convenção, com autoridade para tomar decisões, colocá-las em prática e avaliar seu cumprimento.
Durante a COP-3, é que foi assinado o Protocolo de Kyoto, em que foi estabelecido que os países desenvolvidos deveriam redu¬zir suas emissões de gases do efeito estufa, principalmente gás carbônico, entre 2008 c 2012, para no mínimo 5% abaixo dos níveis de emissão de 1990. As nações em desen¬volvimento, como o Brasil, não precisaram
adotar metas como os países mais ricos, mas se comprometeram a conter suas emissões, contando para isso com recursos financeiros e tecnologia dos desenvolvidos.
Aqueles países que não conseguissem cumprir as metas previstas poderiam financiar a aplicação de tecnologias mais limpas ou o uso de energias renováveis em nações mais pobres e, assim, adquirir "créditos de carbono", baseado em uma das cláusulas do protocolo denomina¬da Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O Brasil se beneficia dessa cláusula para investir em projetos de reflorestamento, introdução de fontes de energia limpa e implantação de aterros sanitários. O Protocolo de Kyoto foi resultado principalmente do empenho dos países europeus, cujos governos há anos mani¬festavam preocupação com os problemas ambientais do continente, fortemente dependente do carvão - uma importante fonte de gases do efeito estufa. O Reino Unido, por exemplo, que reduziu 14% de suas emissões, pensa em ir além das metas de Kyoto e se propõe a cortar 60% dos gases do efeito estufa até 2050.
Mas nem todos os países manifestaram o mesmo empenho. Os Estados Unidos, por exemplo, responsáveis por 35% do total mundial das emissões, não assina¬ram o Protocolo de Kyoto. O governo do presidente George W. Bush se opôs a me¬xer na matriz energética norte-america¬na, fortemente dependente do petróleo, alegando primeiro que não havia provas definitivas do aquecimento global e, depois, que a melhor política para seu país seria investir em tecnologias limpas antes de mexer na economia. Foi por esse motivo que assinou um protocolo de cooperação tecnológica com o Brasil para a produção e biocombustíveis, como o álcool de cana e biodiesel. E investiu no biocombustível à base de milho em seu país, o que provocou aumento no preço desse alimento.
Outro problema é a China, cuja economia, a base de carvão, não pára de crescer. Em 2006, o país ultrapassou os Estados Unidos :m termos de emissões absolutas - mas, apesar de a nação jogar mais gases do efeito ;estufa na atmosfera que os EUA, como a população chinesa é muito maior, a poluição por cabeça da China é bem menor que a dos ÍUA. Pelos termos do Protocolo de Kyoto, a China não precisa se submeter a metas, que ao encargo das nações desenvolvidas. No ;entanto, é um dos países que têm a água e o ir mais contaminados do mundo. Ao sofrer pressão internacional e ser vulnerável na questão dos alimentos, o governo chinês começa a investir em mudanças, como economia de energia e exploração e utilização de fontes mais limpas que o carvão.

0 futuro das negociações
O Protocolo de Kyoto vence em 2012 e leve ser substituído por um novo acordo, que será assinado na próxima Conferência dobre Mudanças Climáticas em Copenhague, no fim de 2009. Em dezembro passa¬do foi realizada uma reunião preparatória para essa conferência, a COP-13, em Bali, que esboçou o "mapa do caminho", ou seja, um cronograma de negociações visando a esse novo protocolo.
Os cientistas do IPCC propuseram em Bali um corte de pelo menos 50% das emissões de gases do efeito estufa, em relação aos níveis de 1990, até 2050 para limitar o aquecimento do planeta em 2 °C. Esse é considerado um nível "se¬guro", acima do qual a Terra assistiria a efeitos em cadeia catastróficos. A União Européia não se opõe a essas metas, mas o atual governo americano ainda se recusa a fixar limites. A solução, impres¬cindível para a aprovação de um documen¬to por consenso, foi retirar referências numéricas, reconhecendo, porém, que "são necessárias profundas reduções nas emissões globais para conseguir o objetivo principal" de frear a mudança climática.
Foi um passo importante. Diferentemente de Kyoto, o acordo de Bali incluiu os Estados Unidos e outras nações, como Japão, Austrá¬lia e Canadá, que também estavam reticentes sobre metas, ao definir que o ataque ao aque¬cimento é um problema global. A palavra global significa que todos os países têm responsabilidade nessa questão, o que retira um dos argumentos dos Estados Unidos de que não se comprometeriam enquanto China e outras nações em desenvolvimento estivessem desobrigadas de tomar medidas para conter suas emissões.
Na reunião foram traçadas duas rotas que devem convergir para o acordo global. De um lado estão os países desenvolvi¬dos, signatários do Protocolo de Kyoto, que já tinham compromissos e, apesar das dificuldades de cumprir suas metas, ampliaram o percentual de redução para 25% a 40% até 2020. Ficou decidido que os países ricos devem repassar tecnologia para os pobres de forma a permitir que o
crescimento desses últimos não implique aumento de poluição do planeta. Foi acor¬dada, também, a criação de um fundo de adaptação, que será gerido pelo Global Environmental Fund (GEF) - formado a partir de uma taxa cobrada nas transações do mercado de crédito de carbono -, para reduzir o impacto do aquecimento global em nações mais vulneráveis.
De outro lado, estão os países em de¬senvolvimento, incluindo aí a China, que permanecem livres de qualquer compro¬misso de redução, e os Estados Unidos, que não assinaram Kyoto. Pelo acordo de Bali, Brasil, China e índia se comprometem a reduzir emissões por meios "mensuráveis, verificáveis e reportáveis", visando ao con¬trole do desmatamento e da degradação do uso do solo. Até Bali, a conservação das florestas não estava sendo considerada ponto a favor dos países.
As negociações continuam - e seu sucesso poderá depender das eleições presidenciais norte-americanas no fim do ano. A expectativa é que o próximo presidente, diferentemente de George W. Bush, seja forçado pela própria opinião pública dos Estados Unidos a se comprometer a adotar medidas mais efetivas contra o aquecimento global.
Como preservar a floresta?

A contribuição mais importante que o Brasil pode dar para o combate ao aquecimento glo¬bal é a redução do desmatamento da maior floresta tropical do mundo - a Amazônica. Isso porque, apesar de ter um grande parque industrial, a matriz energética brasileira é constituída principalmente pelas hidrelétri¬cas e não contribui significativamente para o efeito estufa. O desmatamento, contudo, é responsável por cerca de 75% de 1 bilhão de toneladas de gás carbônico emitidas. Desse total, 59% são provenientes da Amazônia.
O problema é que, em vez de diminuir o ritmo de derrubada de árvores, como ocor¬reu de 2004 a 2007, a tendência agora é de aumento. O desmatamento acumulado durante nove meses - de acordo com o Insti¬tuto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) - de agosto de 2007 a abril de 2008, foi de 5.850 km2, um aumento de 15% comparado a 4.974 km2 entre agosto de 2006 e julho de 2007 - período pelo qual se calcula a taxa anual de destruição da floresta. Além de contribuir para o aquecimento global, o desmatamento da Amazônia traz conse¬qüências para o regime de chuvas do continente. Com a floresta modificada, podem ocorrer mudanças nas estações chuvosas de várias regiões, prejudicando a agricultura e o fornecimento de água para energia.
Tem-se como certo que a destruição da flo¬resta vai aumentar à medida que os preços das commodities agrícolas, como carne e soja, se tornam mais atraentes no mercado internacional e se aproxima a temporada de seca na floresta. No início do ano, a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, alertava que seria muito difícil manter o ritmo de queda nos índices. Propunha en¬tão um novo tipo de ocupação da floresta, que não destruísse a mata, e a criação de uma barreira de reservas que impedisse o avanço da ocupação. Mas o governo vê-se pressionado por interesses econômicos a acelerar a exploração da região.
Na reunião mundial de Bali, em 2007, o governo brasileiro se propôs a criar um fundo, formado por doações de países e empresas, para aumentar os recursos de combate ao desmatamento sempre que o país conseguisse reduzir a taxa de perda de floresta abaixo de um patamar de 19.500 km2 (média do desmatamento na Amazônia entre 1996 e 2005).
Mas nos últimos meses o desmatamento voltou a crescer, e a Amazônia é uma preocupação mundial. Segundo o relatório Sterr (análise feita pelo governo inglês para defini s quanto custa reduzir o efeito estufa), contei o desmatamento é a forma mais barata c eficiente de enfrentar a situação. Basta cerca de 80 bilhões de dólares, uma conta relativa mente baixa se for paga por todo o mundo afirma o jornal inglês The Independent. Eir contrapartida, afirma a publicação, o mundo não pode deixar que os brasileiros percam a floresta, uma vez que sua conservação t muito importante para o planeta.
O que pode ser feito:

As mudanças climáticas são uma realidade. A questão é decidir o que fazer para reduzir o problema. 0 relatório do PCC de 2007 propôs diversas ações, algumas para ser realizadas imediatamente e outras, no futuro
Energia:
Hoje:O Trocar combustíveis fósseis por alternativas i mais limpas, como gás, biocombustíveis, energias nuclear, hidrelétrica, eólica, maremotriz, solar etc.
No futuro: Captar, armazenar e reaproveitar o carbono • para produzir eletricidade; ; novos geradores elétricos ; movidos pelas ondas e marés
Transporte
Hoje: Veículos mais eficientes, híbridos, preferência pelo transporte ferroviário, priorizar os sistemas de transporte público e de bicicletas
No futuro: Os Biocombustíveis de segunda geração; aeronaves mais eficientes; veículos elétricos com baterias mais potentes
Edificações
Hoje: O Equipamentos e iluminação mais ! eficientes; energia solar para aquecimento e refrigeração; novos fluidos de refrigeração, i captura e reciclagem de gases.
No futuro: Edificações comerciais com medidores e i controles inteligentes e ; energia solar fotovoltaica.
Indústria
Hoje: Equipamentos que gastem menos energia; recuperação de energia; reciclagem e substituição de materiais; controle das emissões de gases não-CO2
No futuro: O Alta eficiência energética; armazenamento de carbono na produção de ferro, cimento e amônia; eletrodos inertes na feitura de alumínio.
Na agricultura
Hoje: Maior armazenamento de carbono no solo; melhores técnicas de cultivo de arroz e de pecuária; recuperação de terras degradadas; menos emissão de N20 na fertilização
No futuro: Melhorias nas safras
Florestas
Hoje: Avançar na redução do desmatamento; recuperar áreas degradadas; adotar formas de manejo florestal que permitam manter a floresta em pé
No futuro: Melhoria das espécies de árvore para obter mais biomassa e sequestro de carbono. Melhoria do acompanhamento por satélite
O lixo
Hoje: Recuperação de metano nos aterros sanitários; compostagem dos resíduos orgânicos; reciclagem dos resíduos; tratamento do esgoto e do chorume
No futuro: Biocoberturas e biofiltros para ampliar a oxidação do CH4

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – 2009 – editora Abril

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