Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Água- líquido precioso

O corpo humano é composto de mais de dois terços de água. Para man¬ter a saúde, precisamos bebê-la várias vezes ao dia. É condição básica para a existência da vida; faz parte da rotina de todos. Com ela, escovamos os dentes, tomamos banho, lavamos roupa e louça e ainda geramos energia elétrica, produzi¬mos alimentos, movemos indústrias, transportamos mercadorias e aproveitamos o lazer. O planeta, fornecedor dessa fonte vital, também precisa dela para manter-se saudável - e garantir o equilíbrio do clima e dos ambientes naturais. Não é por acaso que a água simboliza a vida. O problema é que se torna um bem cada vez mais escasso. Mais que isso. Disputada como um tesouro raro e precioso, ela pode se transformar em motivo de violência e guerra, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, calcula-se que 2,2 bilhões de habitan¬tes, quase um terço da humanidade, sofre com a falta de água potável. Em 20 anos, serão 3,9 bilhões com sede.
Estima-se que a principal disputa no planeta nos próximos 50 anos não será por petróleo, ouro ou carvão - mas por água. O alerta consta do relatório divulgado pela ONU no Dia Mundial da Água. Dentro de um cenário de crise, aumenta a briga pela posse e pelo uso desse recurso. A questão preocupa, porque a desigualdade e a es¬cassez tendem a aumentar os conflitos. Além de atritos entre grupos rivais em um mesmo país, há embates diplomáticos entre nações e outras desavenças que po¬dem culminar nas próximas décadas em confrontos armados pelo controle de ma¬nanciais. O relatório identifica 46 países nos quais há risco de essa crise provocar brigas. O perigo é maior entre nações que vivem escassez e compartilham o uso de rios e lagos. Existem no planeta 263 bacias hidrográficas transnacionais, abrangendo 145 países. Mais de 40% da população mundial habita essas áreas, como o mar Cáspio e o mar de Arai, na Ásia; o lago Chade e o lago Vitória, na África, e os Grandes Lagos da América do Norte.
Em alguns casos, as fontes são disputa¬das litro a litro, como no Oriente Médio, onde dominar a água é estopim de guerras desde a Antigüidade. Israelenses e pales¬tinos lideram as disputas. Sob o solo do deserto, estão os lençóis da Cisjordânia. Até 1967, os palestinos usavam essa água à vontade, mas a ocupação israelense, após a Guerra dos Seis Dias, acabou com isso. Os poços são controlados por militares israelenses. E qualquer acordo de paz para a Faixa de Gaza exigirá um capítulo especial para a água.

Cresce a briga

Israelenses e palestinos, por sua vez, confrontam a Síria e a Jordânia pelo con¬trole do vale do rio Jordão, a principal fonte de água da região. Exaurido pela mineração, pela irrigação e até pela ma¬nutenção de campos de golfe no deserto, o Jordão está minguando. Apenas um terço do volume original chega ao mar Morto, que pode sumir até 2050 e se resume a um lago sem vida, seis vezes mais salgado que o oceano. Não muito longe dali, a Síria briga com a Turquia e o Iraque pelo uso da bacia que envolve os rios Tigre e Eufrates. Dona das nascentes, a Turquia represou o Eufrates para gerar energia e irrigar cultivos e diminuiu a água que chega aos países vizinhos. O maior foco de conflito foi a represa de Ataturk, construída pelos turcos na década de 1990, mas novos projetos colocam em risco a paz. Na Ásia Central, a tensão também é crescente. O Tadjiquistão e o Quírguistão controlam 90% das reservas da região. Mas o Uzbequistão é o maior usuário e pede acesso facilitado.
Mais de 400 tratados internacionais en¬volveram o uso compartilhado de recursos hídricos desde 1820 - sem contar os acor¬dos sobre navegação, pesca e demarcação de fronteiras. Um dos exemplos acorreu na Ásia, depois que Bangladesh passou 20 anos de escassez porque a índia construiu a enorme represa de Farakka no curso do rio Ganges, para conseguir a maior quantidade de água antes do rio atingir o território de Bangladesh. O conflito só cessou após a assinatura de um tratado em 1996 para uso compartilhado da água. Mas o potencial de discórdia continua latente no percurso do rio Gan¬ges, que nasce no Himalaia, atravessa a índia e desemboca na baía de Bengala, em Bangladesh. Essa bacia reúne mais de 30 barragens e desvios que reduziram a vazão do rio em 60% na estação seca, prejudicando os bengaleses. Há também disputas na África, onde a ONU estima que o acesso às fontes hídricas seja a causa número l de guerras até 2030. Na região do Nilo, nove países dependem desse rioo para abastecer a população. O Egito faz pressão econômica e militar sobre a Etiópia e o Sudão, situ¬ados nas cabeceiras do rio, para que não construam barragens e diminuam o volu¬me de água no trecho egípcio. Em Darfur, oeste do Sudão, a guerrilha é acusada de envenenar reservatórios para forçar a po¬pulação mulçumana a abandonar a região. Os conflitos têm o potencial de expandir seus efeitos por outras regiões. A União Européia adverte que a falta de água vai acirrar a corrida de imigrantes para o continente europeu. A escassez hídrica, segundo previsões, deverá fazer perto de 100 milhões de refugiados ambientais no planeta nos próximos 20 anos.

Má distribuição

Tudo isso acontece dentro de um plane¬ta com muita água, mas pouco disponível para o consumo. Dois terços da Terra são cobertos por água, mas 97,5% desse volume é salgado, como mostra o gráfico que abre esta reportagem. Dos 2,5% da água que é doce, quase dois terços estão congelados nas calotas polares. A maior parte do que sobra se esconde no subsolo e não tem acesso fácil. O que está pronto para uso humano fica sobretudo nos rios e lagos e significa 0,4% da água doce do planeta. Mas nem essa porção está totalmente disponível. Para que não se esgotem os recursos, é pre¬ciso usar no máximo a mesma quantidade de água renovada pelas chuvas, dentro de um ciclo natural do qual participam os oce¬anos, a atmosfera, as florestas e as demais coberturas vegetais do planeta.
A conta limita a 0,002% a água utilizável da Terra. Precisamos de metade desse estoque. Se o padrão atual de consumo se mantiver, em 30 anos as necessidades hu¬manas vão empatar com a capacidade da natureza de repor a água. Depois disso, ou racionamos o uso das torneiras ou vamos secar rios e lagos até exaurir totalmente as fontes. A ameaça é real, porque a popula¬ção global não pára de crescer e precisará de mais água para se manter.
Recentes relatórios internacionais afir¬mam que a falta de alimentos já é uma rea¬lidade global. No futuro, a situação poderá ser ainda mais crítica, se não houver água. A escassez coloca em risco as metas da Declaração do Milênio, assinada em 2000, sob a coordenação da ONU, para reduzir a nobreza, a fome e a mortalidade infantil no mundo até 2015. Para nutrir a popu¬lação mundial crescente, será necessário duplicar a atual produção de comida. Isso exigirá um aumento de pelo menos 14% na retirada de água para irrigar lavouras. Além do uso intensivo de água, há o risco de impactos negativos, como a ameaça de mais desmatamento, poluição por agro-tóxicos e erosão dos solos.

Conflito entre usos

Atualmente, a agricultura é a ativida¬de que mais consome recursos hídricos no planeta. Sozinha, representa 69% do consumo de toda a água doce. O aumento desse percentual pode provocar conflitos com os demais usuários. As indústrias utilizam 21% da água disponível na crosta terrestre e deverão usar mais para crescer e sustentar o desenvolvimento econômico. Os outros 10% vão para o consumo doméstico - e há necessidade de um volume maior para abastecer a população não atendida atualmente.
A atual crise mundial dos recur¬sos hídricos possui várias causas. Uma das principais, segundo a ONU, são as dificuldades de governo - ou seja, a incapacidade dos países de gerir a água de maneira equitatíva, por fatores como a corrupção, a falta de financia¬mento para o setor e o despreparo técnico. O assunto preocupa: até 2025, o consumo total de água para os diversos fins aumentará 50% nos países em desenvolvimento e 18% no mundo desenvolvido. Esse crescimento poderá ser intolerável em várias partes do planeta, diz o relatório Global Environment Outlook, divulgado pelo Programa das Na¬ções Unidas para o Meio Ambiente, 20 anos após a publicação do famoso documento Nosso Futuro Comum. Elaborado pela Co¬missão Brundtland, em 1987, foi o primeiro que alertou o mundo sobre a necessidade de aliar desenvolvimento econômico e pre¬servação ambiental.
A última edição do relatório diz que é necessário mudar padrões de produção e consumo. Para produzir um carro, gastam-se 400 mil litros de água. Um quilo de carne bovina consome 15 mil litros. Os especia¬listas dizem que também é preciso reduzir o consumo e melhorar a distribuição, tor¬nando mais justo o acesso às fontes hídricas. O ser humano necessita de, no mínimo, 50 litros de água por dia para atender suas ne¬cessidades. Enquanto um norte-americano gasta, em média, 600 litros diariamente, um africano não tem mais de 20 litros para usar no mesmo período. Além do consumo exagerado, há desperdício. Nos plantios, dois quintos da água são perdidos com sistemas de irrigação ineficientes e, nas residências, um terço do consumo atual poderia ser economizado com medidas simples como não deixar a torneira pingando. No caso das indústrias, aplicando-se novas tecnologias, é possível reduzir em até 90% o consumo de água sem prejudicar a produção.


Para saber mais leia – Atualidades vestibulares – 2009 – Ed. Abril

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