Gandhi disse:

" Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas. Não há o suficiente para a cobiça humana" - Gandhi

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Água - Fontes cada vez mais escassas

Sim, o planeta já enfrenta uma crise de água. Isso não significa que a água da Terra esteja chegando ao fim. O volume que circula por mares, rios e lagos, que é guardado nos depósi¬tos subterrâneos, como gelo nas calotas polares ou em umidade da atmosfera, ja¬mais diminui ou aumenta. Está em eterno processo de reciclagem natural: evapora, desaba como chuva, escorre para o fundo da terra e retorna para a superfície, de onde volta a evaporar, num ciclo perpétuo. Por isso, a água é considerada um recurso renovável. Afora uma pequena parcela trazida do espaço sideral por cometas que eventualmente se chocaram com a Terra, a água que usamos para matar a sede c para o banho é composta das mesmas moléculas que formaram os mares em que nadaram os primeiros peixes, o gelo que recobriu o planeta nas eras glaciais e a chuva que molhou os dinossauros. No entanto, um recurso renovável não se mantém, neces¬sariamente, inesgotável e de boa qualidade todo o tempo. Tudo depende do equilíbrio entre a renovação e o consumo.
É claro que fatores naturais limitam o volume de água disponível. Muitos povos vivem em zonas áridas, e mesmo regiões com fartos recursos hídricos passam espo¬radicamente por secas que afetam os ma¬nanciais. Isso sempre foi assim, no decorrer da história. A diferença, na situação atual, é que enfrentamos uma ameaça de escassez crônica de proporções globais, cuja grande causa são as atividades humanas. O consumo crescente e o desperdício, a contaminação dos mananciais e as alterações climáticas desequilibram a relação entre a oferta e a demanda de água potável no planeta. A crise da água é menos uma questão de escassez real e mais de mau gerenciamento do uso desse recurso. E a falta de água põe em risco não só a saúde humana como tam¬bém o desenvolvimento socioeconômico c a paz de toda a sociedade.
Volume disponível
Avaliar o volume total de água do pla¬neta e a taxa de consumo é uma ciência pouco exata. Os especialistas reco¬nhecem que muitos dados são pouco confiáveis, e os números podem variar consideravelmente. Ainda assim, a esti¬mativa do volume de água potável a que o homem tem acesso apresenta valores bem-aceitos na comunidade científica. E esses valores demonstram que, ape¬sar de a Terra ter três quartos de sua superfície submersos, a parcela de água facilmente alcançável pela humanidade é, por comparação, muito pequena.
Do total de cerca de 1,39 bilhão de qui¬lômetros cúbicos de água que revestem o globo, apenas 2,5% são de água doce (35 milhões de quilômetros cúbicos). Além disso, a maior parte da água doce não está disponível ao homem - ou está congelada nas geleiras e calotas polares ou se encontra escondida em depósitos subterrâneos. A real proporção da água a que o homem tem acesso fácil - a su¬perficial, de rios, lagos e pântanos - é de, no máximo, 0,4% da água doce existente no mundo. Contamos com pouco mais de 100 mil quilômetros cúbicos para matar a sede, cuidar da higiene, gerar energia e produzir alimentos c bens industriais.
Não é exatamen¬te pouca água. Se pudesse ser dividi¬da fraternalmente por todos os 6,7 bilhões de habitan¬tes do planeta, cada terráqueo teria di¬reito a mais de 570 bilhões de litros por dia, durante 75 anos. Ainda assim, segundo o Programa para o Meio Ambiente da Orga-nização das Nações Unidas (Unep), algo em torno de 1,1 bilhão de pessoas - ou seja, um a cada seis indivíduos, praticamente - não têm acesso à água limpa e em quantidade suficiente para garantir a saúde e o desen¬volvimento social e econômico.
Escassez natural
A natureza não distribui a água de ma¬neira equilibrada pelo mundo. Enquanto há regiões com recursos hídricos em abun¬dância, outras não dispõem do mínimo diário de 20 a 50 litros por pessoa reco¬mendado pela Organização das Nações básicas. Compare: enquanto cada habitante da Islândia tem disponíveis mais de 600 milhões de litros por ano, um morador do Kuweit depende inteiramente da importa¬ção de água. Um norte-americano poderia consumir até 650 litros diariamente, en¬quanto uma família inteira do continente africano não dispõe de mais de 19 litros para suas necessidades básicas diárias. A escassez de água em algumas zonas do globo - particularmente na África e no Oriente Médio - é tão grande que acaba sendo uma das causas de conflitos armados).
Mesmo nações abençoadas por caudalosos cursos de água podem apresentar grandes discrepâncías internas. E o caso do Brasil. O país é riquíssimo em recursos hídricos, mas o maior volume está na bacia amazônica, a região de menor densidade populacional. No outro extremo, capi¬tais e regiões metropolitanas do Sudeste,
como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, de expressiva concentração demográfica, já estão ameaçadas de es¬cassez hídrica e são obrigadas a buscar água em bacias cada vez mais distantes.
Pressões humanas
Ao contrário do volume de água do planeta, que jamais se altera - nem para mais, nem para menos -, a população mundial cresce aceleradamente. Assim, para uma mesma quantidade de água existem mais e mais bocas sedentas. Ape¬nas entre 1950 e 2008, a população mun¬dial subiu de 2,5 bilhões para 6,7 bilhões. Em 2050 poderemos ter ultrapassado os 9 bilhões. Os efeitos desse inchaço popu¬lacional já são sentidos em várias regiões. Nos últimos 60 anos, mas a população do planeta mais que duplicou, o consumo de água aumentou sete vezes.
O crescimento demográfico não signifi¬ca apenas mais torneiras, descargas sanitá¬rias e chuveiros nas residências. Significa, também, que as sociedades precisam gerar mais energia e produzir cada vez mais, tanto no campo quanto nas fábricas. É fato: o desenvolvimen¬to industrial tem grande peso na queda do nível dos rios e aqüíferos. Por isso, quanto mais rica for uma população, maior será o consumo de água por cabeça.
A disparidade entre o consumo de água por ricos e pobres constrói uma perversa lógica de mercado. À população carente sem acesso ao serviço de for¬necimento de água restam duas tristes opções: ou longas caminhadas diárias até poços e reservatórios ou a compra de água de fornecedores particulares -agueiros ou caminhões-pipa. Nas duas situações, os prejuízos econômicos e sociais são imensos: estima-se que os africanos gastem 40 bilhões de horas a cada ano só no trabalho de coleta de água em pontos distantes e transportando-a para o uso. É um tempo precioso, mais bem aproveitado se fosse destinado à produção de riquezas econômicas.
Em termos financeiros, as populações pobres de países em desenvolvimento também levam a pior: em média, pagam entre 10 e 20 vezes mais pela água compra¬da de particulares do que as camadas mais altas da população, que têm acesso à rede de água e esgoto. O resultado final é trági¬co: as populações mais pobres do planeta apresentam altos índices de mortalidade e de incidência de doenças relacionadas às condições de acesso à água, que é escassa ou contaminada.
O aquecimento global - também in¬tensificado pelo homem - é outra grande pressão sobre o estoque de água do plane¬ta. As emissões de carbono e as mudanças na paisagem, com a destruição de matas e a impermeabilização dos solos, alteram o regime das chuvas, desequilibrando o ritmo do ciclo hidrológico. Como con¬seqüência, enquanto algumas regiões enfrentam secas dramáticas, outras -incluindo grandes cidades dos países em desenvolvimento - submergem em enchentes catastróficas.
Fatores como o crescimento demo¬gráfico, o desenvolvimento econômico, a urbanização e as alterações climáticas constituem o que os especialistas cha¬mam de pressões do homem sobre a água.
São atividades humanas que provocam grandes alterações no ciclo hidrológico: a natureza acaba não dispondo do tempo necessário para reciclar a água dos mares para a atmosfera e desta para os rios que abastecem os reservatórios. E as perspec¬tivas não são animadoras: estima-se que, em 2025,1,8 bilhão de pessoas estarão vivendo em zonas absolutamente secas e dois terços da humanidade estarão sujei¬tos a alguma restrição no acesso à água. Por volta de 2050, 75% da humanidade poderá enfrentar escassez hídrica crônica. Com tanta pressão, a água, considerada direito universal de todo ser humano, transforma-se rapidamente em merca¬doria .
Os especialistas afirmam que as políticas públicas aplicadas atualmente à questão da água têm alcance limitado, pois tentam resolver os problemas com visão de curto prazo. A solução da crise em toda a sua extensão exige mudanças profundas nos padrões de consumo e nas culturas eco¬nômicas, bem como o desenvolvimento de políticas públicas mais efetivas para o acesso universal aos serviços de sanea¬mento e fornecimento de água.
LOS ANGELES SE APROXIMA DO RACIONAMENTO DE ÁGUA
Por Steve Gorman
A maior empresa de serviços públicos dos EUA aprovou na terça-feira a adoção de um racionamento de água em Los Angeles pela primeira vez em quase duas décadas, já que as recentes chuvas na região não atenua¬ram os efeitos da recente seca na Califór¬nia. Pelo plano adotado preliminarmente pela direção do Departamento de Água e Energia de Los Angeles, casas e empresas pagarão uma tarifa punitiva - quase o dobro da normal para a água que exceder uma determinada quota mensal. (...)
A única vez em que a sobretaxa foi ado¬tada na cidade, a segunda maiordos EUA, foi entre março de 1991 e março de 1992, na última grande seca do Estado. A me¬dida reduziu o consumo de água em Los Angeles em cerca de 25 por cento (...) Por unanimidade, a empresa aprovou também que os "sprinklers" para irriga cão de jardins
sejam usados no máximo em dois dias da semana, como pediu o prefeito. A irrigação das plantas representa 40 por cento do uso residencial de água na cidade, segundo o DAE, que atende cerca de 3,8 milhões de residências e empresas (...)
A cobertura de neve na serra Nevada, uma das principais fontes de água doce superficial no Estado, está bem abaixo do normal, e os reservatórios alimentados pelas vertentes da serra também estão muito reduzidos, devido a uma seca que já entra no seu terceiro ano.
As autoridades hídricas estaduais dizem que a atual seca pode ser a pior da história na Califórnia, agravada pelo crescimento populacional constante. (...)
Além disso, há restrições da Justiça fede¬ral a respeito da quantidade de água que pode ser bombeada do delta do Sacramento-Sanjoaquin, no norte da Califórnia, para proteger espécies ameaçadas de peixes.

Reuters, 78/2/2009

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – Editora Abril

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